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Soldados e reservistas israelitas recusam participar na «guerra de vingança»

No dia 7 de outubro/2024, 140 reservistas israelitas assinaram uma carta em que anunciavam a sua recusa em continuar a prestar serviço enquanto não fosse assinado um acordo para libertar os reféns. Estes reservistas estão contra uma guerra movida por um sentimento de vingança com o qual não concordam.

Três mobilizados recusam-se agora a continuar a combater e dão o seu testemunho: Max Kresh estava na fronteira com o Líbano; Michael Ofer-Ziv estava por detrás dos ecrãs de uma sala de guerra, a acompanhar as operações em Gaza; Guy* juntou-se ao destacamento de Gaza antes de ser colocado no centro de detenção de Sde Teiman. Signatários de uma carta publicada a 9 de outubro, afirmam que se recusam a continuar a prestar serviço até que seja alcançado um acordo para libertar os reféns.

O documento, o segundo do género desde o início da guerra, reuniu cerca de 140 assinaturas e suscitou um grande debate numa sociedade que despreza os «refuseniks». Enquanto muitos reservistas deixaram silenciosamente de responder às suas convocatórias, por cansaço ou por razões económicas, uma minoria optou por fazer disso uma questão política, fruto de uma consciência enraizada nas suas experiências num exército e numa guerra movidos por um sentimento de vingança com o qual não concordam.

A banalização da violência contra os palestinianos detidos

«Estas cartas não nos absolvem, mas são o mínimo que podemos fazer», diz Guy. Testemunha do inferno do centro de detenção de Sde Teiman, onde foram relatados casos de tortura e maus tratos contra prisioneiros de Gaza, Guy conta a banalização da violência extrema pela qual ninguém é punido:

«Os detidos foram espancados por soldados. Alguns ficaram feridos e um morreu. Vi detidos a quem foram amputados membros porque as algemas estavam demasiado apertadas. Vi negligência médica, enfermeiros que não davam analgésicos... Crueldade pura.»

«A morte de Yahya Sinwar poderia ter aberto caminho a um acordo, mas em vez disso fala-se de limpeza étnica do norte de Gaza ou de recolonização... Não posso fazer parte disto.»

A sua visita a Sde Teiman e as imagens de Gaza chocaram-no.

«Já não se trata apenas de acções moralmente condenáveis, mas de crimes de guerra. As verdadeiras intenções do Governo estão a tornar-se cada vez mais claras. A morte de Yahya Sinwar poderia ter conduzido a um acordo, mas, em vez disso, fala-se de limpeza étnica do norte de Gaza, ou de recolonização... Não posso fazer parte disto.»

Não existe um regulamento de comportamento de guerra

É esta mesma atmosfera de vingança que Michael Ofer-Ziv, reservista de 29 anos, denuncia. Oficial de controlo no centro de Gaza, este funcionário tecnológico de Telavive viveu a guerra através dos ecrãs. Sentado numa sala de controlo, está encarregue de gerir os combates, actualizando os mapas interactivos onde são indicadas as posições de todos. Com os olhos fixos nas imagens gravadas pelos drones, está atento aos movimentos e às acções:

«Vi os bombardeamentos e a destruição em directo. A preto e branco. Parecia irreal, distante. Quando voltei a ligar o telemóvel nos intervalos e abri as notícias internacionais, percebi que estes ataques tinham consequências.»

A sua tomada de consciência ocorreu em dezembro, no final do primeiro acordo de tréguas e após a morte de três reféns, abatidos por um atirador israelita quando tinham os braços no ar e um deles agitava um pano branco.

«Apercebi-me de que a pressão militar estava a colocar os reféns em perigo e que tínhamos criado uma realidade em que matar pessoas com uma bandeira branca podia acontecer.»

«Estávamos numa zona bastante vazia e os soldados tinham pouco contacto com o inimigo. Quando o faziam, relatavam-nos o sucedido, dizendo: "Vimos alguém a correr, disparámos sobre ele e ele morreu". Nós não questionámos nada. Simplesmente assumimos que estavam armados, numa forma de negligência para com as vidas palestinianas. Isto cria uma situação em que os soldados podem fazer o que quiserem.»

O reservista diz que não viu circular nenhum documento relativo às regras de comportamento.

Na sala de guerra, Michael tem pouco a dizer sobre os seus dilemas. Costumava ouvir muitas vezes: «Não há inocentes em Gaza», ou «Não há pessoas desarmadas», ou que os palestinianos são «amalek», esse inimigo que tem de ser varrido da face da terra. Em abril, assinou a primeira carta de recusa. Na altura, eram 40: «Um ano após o início da guerra, há uma espécie de desilusão que ganha terreno».

Um socorrista que se sente traído

Max Kresh é um dos novos signatários. Este socorrista de origem norte-americana, colocado numa unidade de elite mobilizada na região do Monte Hermon, sente-se «traído» por um governo radical e religioso contra o qual se insurge desde 2023.

«Desde o primeiro dia, Netanyahu utilizou o trauma de 7 de outubro como uma arma. Incentivou um clima de vingança e racismo. Não trabalha para o povo, mas para os seus próprios interesses.»

Este esguio estudante de biologia que escreveu ao seu comandante após a morte de Hersh Goldberg-Polin e de quatro outros reféns, provavelmente executados pelo Hamas no final de agosto:

«Disse-lhe que não queria continuar a sacrificar a minha vida se este fosse o governo que tínhamos, um governo que mata reféns.»

Chegado a Israel em 2014, este americano de 28 anos descreve a angústia dos primeiros dias na fronteira com o Líbano: «Todas as noites, durante uma semana, esperávamos que o Hezbollah invadisse o norte. Eu estava à espera de morrer. Só esperávamos conseguir atrasá-los». Em 12 de outubro, partilhou as suas ideias no Facebook: «É tempo de abraçar os nossos vizinhos árabes e palestinianos. (...) Não vou desistir da paz». O texto circulou na sua unidade.

«Tenho sido criticado, ostracizado e isolado, tem sido muito difícil. A opinião dominante é a da vingança. Mas era-me impossível não falar.»

Solicitado pelo Governo a gerir a revolta dos seus soldados, o exército telefonou aos signatários da carta para lhes pedir que retirassem os seus comentários e para os despedir se recusassem. «Foi um pouco como se dissessem: "Não és tu que me deixas, sou eu que te deixo"», ri-se Max, que se manteve fiel à sua escolha, apesar da desaprovação da família e da sociedade. Embora os reservistas «refusenik» possam ter sido punidos no passado, hoje em dia isso é muito menos frequente: «Nós servimos. Cumprimos o nosso dever. É também isso que nos dá legitimidade para falar.»

 


Notas:

[*] Nome fictício.

 

Fontes e referências

Fonte: «"C’est une guerre de revanche": en Israël, des soldats refusent de continuer à se battre», Le Soir, 28/10/2024.
Traduzido e editado por Rui Viana Pereira.

 

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