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França: por uma Nova Frente Popular com os movimentos sociais

vários autores, 19/06/2024

Pela segunda vez, Emmanuel Macron tenta o mesmo truque: face a uma subida preocupante da extrema direita (desta vez nas eleições para o Parlamento europeu), convoca eleições antecipadas, no estreito prazo de duas semanas, não dando tempo aos seus adversários para se entenderem e formarem coligações. Procura assim beneficiar do «voto útil» de toda a esquerda e vencer a sua mais destacada oponente de extrema direita, Marine Le Pen, do partido da União Nacional (Rassemblement National - RN). Desta vez, porém, a jogada saiu-lhe mal: toda a esquerda francesa se uniu no tempo recorde de 4 dias para formar uma Nova Frente Popular (Nouveau Front Populaire), constituir um programa e apresentar listas de candidatos.

A Nova Frente Popular é reminiscente da Frente Popular de 1934, então promovida pelo Partido Socialista e pelo Partido Comunista, para combater a ameaça dos gangs fascistas. Essa frente não só viria a ganhar as eleições de 1936, como, sob pressão dos movimentos populares e operários – que lançaram as maiores greves e ocupações de fábricas da história da França até maio de 1968 –, se viu forçada a ir muito mais além do seu próprio programa de governo e conceder, pela primeira vez na História, o direito a férias pagas, à semana de trabalho de 40 horas, ao subsídio de desemprego, à nacionalização de sectores industriais estratégicos, etc.

Aqui vos deixamos um abaixo-assinado com o apelo aos movimentos sociais para se juntarem à Nova Frente Popular.

Apelo à intervenção de militantes dos movimentos sociais, das mobilizações cidadãs e da esquerda alternativa

Nós, sindicalistas, activistas dos movimentos sociais e ecologistas, dos bairros populares, dos agricultores, das associações e colectivos de moradores, das mobilizações de cidadãos, activistas das organizações políticas da esquerda alternativa – actores das lutas ambientalistas, anticapitalistas, feministas, LGBTQI, anti-imperialistas e internacionalistas, anti-racistas, anti-validistas ... – respondemos ao apelo por uma Nova Frente Popular para impedir uma maioria de extrema direita na Assembleia Nacional e, ao mesmo tempo, fazer recuar o neofascismo e o macronismo que o reforça.

O acordo eleitoral dos partidos de esquerda que assinaram o comunicado «Poucos Dias para Construir Uma Frente Popular» era absolutamente necessário. As candidaturas da Frente Popular devem encarnar a aspiração à unidade, ser as mais unificadoras da esquerda, as mais legítimas a nível local, as mais susceptíveis de vencer a extrema-direita – o que exclui casos específicos de candidatos particularmente opostos aos valores sociais, feministas e anti-racistas que defendemos – para que o maior número possível de deputados de esquerda seja eleito a 7 de julho. Nas nossas cidades, nos nossos locais de trabalho e nos nossos bairros participaremos plenamente nesta mobilização eleitoral. Mas a Nova Frente Popular, que neste momento não é mais do que um acordo eleitoral, não pode ser realizada sem os movimentos sociais.

É, antes do mais, uma necessidade pragmática. Ficou demonstrado com a grande mobilização que se opôs à contra-reforma das reformas/pensões em 2023: quando os sindicatos e os movimentos sociais se associam, conseguem reunir milhões de pessoas. É uma força inestimável que pode e deve contribuir para a vitória.

É além disso uma exigência democrática fundamental, pois queremos que os deputados para cuja eleição contribuímos prestem contas dos seus actos durante o mandato, que se mantenham ao serviço dos interesses dos/as oprimidas e explorados. É a única via para reconstituir uma força popular capaz de evitar a catástrofe, não só hoje mas também nos anos vindouros, e para construir uma verdadeira alternativa social e política. Não esquecemos os desacordos que possamos ter com certos componentes políticas da Nova Frente Popular, seja nas mobilizações dos últimos meses ou quando algumas delas estavam no poder. Participar na Nova Frente Popular não significa passar um cheque em branco: no nosso entender, só a participação nesse espaço das/os militantes dos movimentos sociais, ambientais e de cidadania, da esquerda mobilizada no terreno, pode permitir realmente a construção de uma alternativa popular e antifascista capaz de inverter a tendência em curso e lançar as bases de uma ruptura. Dizemo-lo com clareza: a nossa bússola, a nossa prioridade, é antes do mais as reivindicações expressas pelos próprios movimentos sociais.

Não se trata apenas de fazer melhor, mas também de fazer mais. Se nos mantivermos vigilantes, conseguiremos ir mais longe na ruptura e alternativa. As forças hostis que um governo da Nova Frente Popular teria de enfrentar não deixarão de estar presentes, também elas. O patronato defender-se-á com unhas e dentes. A extrema direita e os arruaceiros fascistas quererão vingar-se de uma oportunidade perdida. Todos procurarão fazer cair um tal governo, para tomarem o poder em 2027. Se, inversamente, fosse a extrema direita a governar, ou um macronismo ainda mais à direita e autoritário do que hoje em dia, teríamos absoluta necessidade de reforçar as nossas capacidades de mobilização, de autodefesa, de solidariedade concreta e política com os mais oprimidos/as, discriminados/as, explorados/as, todas e todos quantos já são vítimas de sistemático racismo, islamofobia ou anti-semitismo, que constituirão o primeiro alvo desses governos. Por isso, fazer frente popular significa preparar a autodefesa e a ofensiva populares, nos bairros, no campo, nas empresas, em cada comarca, a partir de agora.

Sim à unidade para fazer frente conjunta! Mas ela não vencerá sem os movimentos sociais e as mobilizações cidadãs, sem intervenção popular e sem democracia. Não basta mudar o governo, é preciso mudar a sociedade.

Por isso apelamos:

A todos os/as camaradas, colegas, vizinhos/as e amigos/as para que participem plenamente na mobilização eleitoral no terreno.

- À participação em todas as manifestações, encontros, chamadas das nossas organizações ou de todas as organizações que conjuguem a necessidade de uma resposta antifascista massiva à ruptura com as políticas neoliberais.

- A que os partidos políticos signatários do acordo eleitoral dêem espaço às nossas organizações e militantes, às pessoas menorizadas, na Nova Frente Popular que está a ser construída, a nível local e nacional.

- Ao conjunto das organizações e componentes dos movimentos sociais e cívicos para que integrem a Frente Popular e participem nas assembleias e comités da Nova Frente Popular ao nível local, de forma a contribuírem com uma perspectiva de ruptura e alternativa às políticas levadas a cabo nos últimos 40 anos.
 

Para subscrever, receber informações ou fazer propostas: frontpopulairesocial@gmail.com
 

Primeiras/os signatários:

 

Fontes e referências

Traduzido por Rui Viana Pereira.

Fonte: Vários autores, «Faire front populaire, avec le mouvement social», Mediapart, 19/06/2024.

 
temas: França, movimentos sociais

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