Estados Unidos, Próximo Oriente e Médio Oriente: intervenções, golpes de Estado e domínio geopolítico
Entre os objectivos centrais da política norte-americana nesta vasta região figuraram o controlo de parte dos recursos energéticos, a garantia da segurança das rotas estratégicas do petróleo e do gás, o apoio ao Estado de Israel e a vontade de impedir o surgimento de governos susceptíveis de pôr em causa a ordem regional favorável aos interesses imperialistas ocidentais.
Os Estados Unidos apoiaram a ditadura do xá no Irão até à revolução de 1979; as monarquias conservadoras do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e o Catar; os regimes militares ou autoritários na Turquia, no Egipto, na Jordânia e noutros países aliados; o Estado de Israel, que se tornou progressivamente o principal beneficiário da ajuda militar norte-americana; as intervenções contra os movimentos nacionalistas árabes, nomeadamente na Síria, no Iraque, no Líbano e na Palestina; a guerra do Iraque de Saddam Hussein contra o Irão (1980-1988); as guerras contra o Iraque (1991 e 2003) e a ocupação desse país; a intervenção no Afeganistão a partir de 2001; as guerras contra o Irão, o Líbano e o Iémene; o genocídio contra o povo palestiniano.
1. Os objectivos permanentes da política dos Estados Unidos no Próximo e no Médio Oriente
Desde o início da Guerra Fria, a política dos Estados Unidos no Próximo e no Médio Oriente* responde a um conjunto de objectivos relativamente constantes, independentemente das administrações em funções em Washington. Estes objectivos evoluíram nas suas modalidades, mas a sua lógica fundamental permaneceu notavelmente estável.
O primeiro objectivo consiste em impedir o surgimento de governos susceptíveis de pôr em causa o domínio político, militar ou económico dos Estados Unidos e dos seus principais aliados ocidentais. Durante a Guerra Fria, esta política traduziu-se numa luta contra os movimentos nacionalistas, socialistas ou comunistas, quer tivessem chegado ao governo por via constitucional ou não, quer estivessem na oposição. Após o desaparecimento da União Soviética, Washington continuou a combater os governos que procuravam conduzir uma política independente dos seus interesses estratégicos.
O segundo objectivo é assegurar o controlo dos recursos energéticos da região e das principais vias de comunicação internacionais. As imensas reservas de petróleo e gás do Golfo, bem como o controlo de pontos de passagem estratégicos como o Canal do Suez, o estreito de Ormuz ou o estreito de Bab-el-Mandeb, tornaram o Próximo e o Médio Oriente numa região considerada vital pelos dirigentes norte-americanos.
O terceiro objectivo é garantir a segurança de Israel e a sua capacidade de intervir militarmente na região e de se expandir. Israel tornou-se progressivamente o principal aliado regional dos Estados Unidos e, de certa forma, o seu braço armado1. O apoio político, diplomático, financeiro e militar prestado ao Estado israelita, incluindo a sua política genocida contra o povo palestiniano, constitui hoje um dos pilares da estratégia norte-americana na região.
Por fim, Washington tem-se esforçado constantemente por manter um equilíbrio regional favorável aos seus interesses, apoiando certos regimes, enfraquecendo outros, desenvolvendo uma vasta rede de bases militares e celebrando alianças com as monarquias do Golfo, a Turquia, a Jordânia ou ainda o Egipto após os acordos de Camp David.
2. Os principais instrumentos da intervenção norte-americana
Para atingir estes objectivos, os Estados Unidos mobilizaram uma grande diversidade de meios, combinando intervenções directas e acções indirectas.
O primeiro método consistiu em favorecer ou organizar golpes de estado destinados a derrubar governos considerados hostis aos interesses americanos. O derrube do governo de Mohammad Mossadegh no Irão, em 1953, constitui o precedente mais famoso, mas marcou o início de uma prática que se repetiria noutras regiões do mundo ao longo da Guerra Fria.
Washington prestou igualmente apoio militar, financeiro e político a numerosos regimes autoritários aliados, independentemente do seu respeito pelos direitos humanos ou pelos princípios democráticos. A Arábia Saudita e todas as outras monarquias do Golfo, a Jordânia, a Turquia ou ainda o Egipto após 1979 tornaram-se parceiros privilegiados desta política.
Os Estados Unidos recorreram também a intervenções militares directas, bombardeamentos, envio de tropas, ocupação de territórios, bem como à instalação de bases militares permanentes. A estes meios se juntam as operações clandestinas da CIA, os assassínios selectivos, o fornecimento de armas a forças aliadas, o financiamento de grupos armados, as sanções económicas e as campanhas de isolamento diplomático.
A partir da década de 1980 e do início da década de 1990, a luta contra o terrorismo tornou-se um argumento central para justificar uma presença militar crescente na região. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, esta justificação transformou-se na doutrina global da «guerra contra o terrorismo», utilizada para legitimar as intervenções no Afeganistão e, posteriormente, no Iraque, bem como a extensão duradoura da presença militar norte-americana em todo o Próximo e Médio Oriente.
A história da região desde 1953 revela, assim, uma notável continuidade nos instrumentos utilizados. Apesar das mudanças no contexto internacional, as sucessivas administrações — tanto democratas como republicanas — prosseguiram, em grande medida, os mesmos objectivos estratégicos, adaptando os seus métodos às circunstâncias.

3. O derrube do Governo do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh no Irão
O golpe de estado de 19 de agosto de 1953 no Irão constitui um dos momentos fundadores do intervencionismo dos Estados Unidos no Médio Oriente contemporâneo. Esta operação, conduzida em conjunto pela CIA norte-americana e pelos serviços secretos britânicos (MI6), derrubou o governo do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, um líder nacionalista, progressista e laico, que se tinha empenhado em nacionalizar a indústria petrolífera iraniana para que as riquezas do país beneficiassem a população iraniana e não mais as grandes empresas ocidentais.
Mossadegh, que chegou ao poder em 1951, tinha lançado uma série de reformas destinadas a reforçar a soberania nacional, limitar o poder da monarquia e afirmar a independência do Irão face às antigas potências coloniais. A sua decisão de nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company, controlada por interesses britânicos, provocou uma grave crise com Londres.
Os Estados Unidos apoiaram activamente o derrube de um governo democraticamente eleito, a fim de preservar os interesses petrolíferos ocidentais e impedir que um estado do Médio Oriente seguisse um caminho independente.
A Operação Ajax, nome de código do golpe de estado de 1953, permitiu restaurar o poder absoluto do xá Mohammad Reza Pahlavi. Este se tornou um dos principais aliados de Washington na região durante mais de vinte e cinco anos. O regime do xá, apoiado militar, financeira e politicamente pelos Estados Unidos, instaurou uma ditadura repressiva, nomeadamente através da polícia política SAVAK, formada com a ajuda da CIA e do Mossad israelita.
Este primeiro golpe de Estado2 marca o início de uma longa série de intervenções americanas no Médio Oriente alargado. Em nome da luta contra o comunismo durante a Guerra Fria e, posteriormente, da «guerra contra o terrorismo» após 2001, Washington apoiou ou favoreceu golpes de Estado militares, regimes autoritários, guerras directas, ocupações, intervenções clandestinas e operações de desestabilização em numerosos países da região.
4. 1953-1979: da contenção do nacionalismo árabe à revolução iraniana
Como referido anteriormente, o derrube de Mohammad Mossadegh, em agosto de 1953, marcou o início de uma nova fase da política norte-americana no Próximo e no Médio Oriente. Os Estados Unidos foram assumindo progressivamente o lugar das antigas potências coloniais europeias, principalmente o Reino Unido e a França, cuja influência declinou rapidamente após a Segunda Guerra Mundial.
Durante este período, Washington procura conter tanto a influência soviética como o surgimento de movimentos nacionalistas que reivindicam o controlo dos recursos naturais, reformas sociais e uma maior independência em relação às potências ocidentais. Esta estratégia levou os Estados Unidos a apoiar regimes conservadores e monarquias aliadas, nomeadamente no Irão, na Arábia Saudita, na Jordânia, na Turquia e nos principados do Golfo.
A chegada ao poder de Gamal Abdel Nasser no Egito em 1954, a nacionalização do Canal do Suez em 1956 e, posteriormente, a ascensão do nacionalismo árabe constituem desafios para Washington. Embora os Estados Unidos se oponham à intervenção militar franco-britânica e israelita contra o Egipto em 1956, procuram simultaneamente limitar a influência de Nasser na região. A doutrina Eisenhower de 1957 afirma explicitamente a vontade norte-americana de intervir para impedir qualquer governo considerado favorável ao comunismo ou susceptível de pôr em causa a ordem regional apoiada por Washington.
As décadas de 1960 e 1970 caracterizaram-se por um reforço constante da influência norte-americana. Os Estados Unidos consolidaram a sua aliança com Israel após a guerra de 1967, apoiaram as monarquias do Golfo, desenvolveram a sua cooperação militar com a Turquia e apoiaram-se no regime autoritário do xá do Irão, que se tornou um dos seus principais parceiros regionais.
Como escreve Gilbert Achcar:
«A primeira guerra árabe-israelita em que os Estados Unidos apoiaram plenamente Israel foi a de 1967. Nessa época, o mundo árabe vivia uma forte radicalização política, marcada pela viragem à esquerda de numerosos movimentos nacionalistas e pela sua aproximação à União Soviética. Estes regimes mobilizavam um imaginário político amplamente inspirado no socialismo. Do ponto de vista de Washington, o Cairo surgia então como uma espécie de «Havana do mundo árabe», enquanto Damasco seguia uma trajectória considerada comparável. Os dirigentes americanos viam neles regimes empenhados numa trajectória «cubana», do nacionalismo para o socialismo. A derrota de 1967 constituiu, assim, um revés significativo para o Egipto de Nasser e para a Síria, então dominada pela ala esquerda do Baas, antes da tomada do poder por Hafez el-Assad em 1970. Numa região altamente estratégica devido aos seus recursos petrolíferos, esta derrota infligida por Israel a estados na linha da frente do discurso anti-imperialista é, de um modo geral, vista com bons olhos em Washington.»3
No Iraque, já na década de 1960, Washington apoiava as forças opostas ao governo anti-imperialista de Abdel Karim Kassem (que era apoiado pelo Partido Comunista iraquiano, um dos raros partidos comunistas de massas na região árabe), derrubado em 1963, quando tinha iniciado a recuperação do controlo dos campos petrolíferos, levado a cabo uma reforma agrária, garantido os direitos sindicais e melhorado os direitos das mulheres. Após a tomada do poder pelo Partido Baas em 1968 e a repressão brutal dos comunistas e sindicalistas, Saddam Hussein tornou-se progressivamente o principal líder do Partido Baas e os Estados Unidos passaram a considerar o Iraque como um potencial parceiro na região.
Esta arquitectura estratégica foi, no entanto, profundamente abalada pela revolução iraniana de 1979, que derrubou o xá e privou Washington do seu aliado mais importante no Golfo.
5. 1979-1991: revolução iraniana, guerra Irão-Iraque e afirmação da presença militar norte-americana
A revolução iraniana de 1979 constitui um ponto de viragem importante na história do Próximo e do Médio Oriente. A queda do xá, apoiado há mais de vinte e cinco anos por Washington, leva à ruptura das relações entre os Estados Unidos e a República Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini. A tomada de reféns na embaixada americana em Teerão simboliza esta ruptura duradoura.
Já antes da intervenção soviética de dezembro de 1979, Washington optou por apoiar organizações islamistas armadas, com o objectivo de enfraquecer o governo afegão, empenhado num programa de reformas laicas e próximo da União Soviética. O ponto de referência é a decisão tomada pelo presidente Carter, a 3 de julho de 1979, de assinar uma primeira directiva que autorizava a prestação de ajuda secreta aos opositores islamistas do governo de Cabul. Esta decisão está hoje bem documentada, nomeadamente nas memórias de Zbigniew Brzezinski. Numa entrevista concedida em 1998 ao Nouvel Observateur, Brzezinski afirmou que, já em julho de 1979, tinha indicado ao presidente Carter que, na sua opinião, a ajuda clandestina aos opositores afegãos aumentaria a probabilidade de uma intervenção militar soviética. Numa entrevista concedida em 1998 ao Nouvel Observateur, Brzezinski afirmou mesmo que essa ajuda tinha sido concebida para aumentar a probabilidade de uma intervenção soviética4. Após a invasão soviética, esta política foi amplamente reforçada com a colaboração do Paquistão, da Arábia Saudita e de outros aliados, que financiaram, armaram e treinaram os mujahedin, entre os quais se contavam também milhares de voluntários estrangeiros. Embora esta estratégia tenha contribuído para o esgotamento da URSS e para a sua retirada do Afeganistão em 1989, também favoreceu o surgimento de correntes fundamentalistas armadas. Uma parte dos combatentes estrangeiros e das redes constituídas durante esta guerra daria origem, em 1988, à Al-Qaeda, cujos líderes viriam posteriormente a voltar as armas contra o seu antigo protector americano.
No vizinho Iraque, a tomada do poder por Saddam Hussein em julho de 1979, na sequência de um golpe palaciano no seio do regime baasista, insere-se nessa mesma convergência de interesses estratégicos. Sem romper os laços mantidos por Bagdade com a União Soviética, Saddam rapidamente se revelou, aos olhos de Washington, como o líder mais apto a conter a influência do regime iraniano. Quando desencadeou a guerra contra o Irão, em setembro de 1980, o seu regime serviu, de facto, os interesses estratégicos dos Estados Unidos, das monarquias do Golfo e das principais potências da Europa Ocidental.
Esta decisão surge num contexto em que os Estados Unidos passaram a considerar a República Islâmica como o seu principal adversário no Médio Oriente. Embora Washington proclame oficialmente a sua neutralidade, numerosos estudos históricos revelam que a administração Carter intensificou os contactos com os dirigentes iraquianos nos meses que antecederam a invasão. Vários autores referem, nomeadamente, um encontro entre Zbigniew Brzezinski e Saddam Hussein na fronteira entre a Jordânia e o Iraque, durante o verão de 1980, interpretado como um sinal político indicando que os Estados Unidos não se oporiam a uma ofensiva contra o Irão. Esta interpretação é corroborada por um memorando redigido em abril de 1981 pelo secretário de Estado Alexander Haig, no final de uma visita ao Médio Oriente5. Resumindo as suas conversas com os líderes sauditas, Haig observa: «It was also interesting to confirm that President Carter gave the Iraqis a green light to launch the war against Iran through Fahd» («Foi também interessante confirmar que o presidente Carter deu aos iraquianos, por intermédio de Fahd, luz verde para desencadear a guerra contra o Irão»). Desde o início do conflito, Washington favoreceu Bagdade a nível político e diplomático, antes de lhe prestar um apoio crescente em matéria de informações, financiamento, equipamentos de dupla utilização e assistência militar. Esta política respondia a um objectivo estratégico claro: impedir a consolidação e a expansão da influência regional do regime iraniano. Tratava-se também de esgotar os dois países e, assim, reduzir a sua capacidade de desempenhar um papel de potências regionais6. A guerra, que durou oito anos, fez quase um milhão de vítimas sem alterar fundamentalmente as fronteiras entre os dois Estados.
Ao mesmo tempo, Washington consolida a sua aliança com o Egipto de Anwar el-Sadat. Depois de ter rompido progressivamente com a União Soviética no início da década de 1970 e expulso os conselheiros soviéticos em 1972, Sadat aproxima-se dos Estados Unidos, que se tornam um parceiro essencial do regime. Os acordos de Camp David, de setembro de 1978, e posteriormente o tratado de paz egípcio-israelita, de março de 1979, consagram esta aproximação: em troca da paz com Israel e da integração do Egipto no bloco ocidental, Washington concede ao Cairo uma ajuda económica e militar considerável. O Egipto torna-se assim, a seguir a Israel, o segundo maior beneficiário da ajuda militar norte-americana no mundo, tendo recebido, nos últimos anos, cerca de 1,3 mil milhões de dólares de assistência militar por ano. O assassínio de Sadat por islamistas, em outubro de 1981, não pôs em causa esta orientação: o seu sucessor, Hosni Mubarak, manteve a aliança estratégica com Washington e o tratado de paz com Israel.
Na Turquia, aliada estratégica dos Estados Unidos e membro da OTAN desde 1952, Washington acolheu de forma muito favorável o golpe de estado militar de 12 de setembro de 1980, liderado pelo general Kenan Evren. Este golpe pôs fim a vários anos de intensificação das lutas sociais e políticas e instaurou um regime militar que suspendeu as liberdades democráticas, dissolveu os partidos políticos e os sindicatos, prendeu centenas de milhares de pessoas e recorreu amplamente à tortura. A junta governou directamente até novembro de 1983, enquanto a Constituição autoritária de 1982 e a influência política do exército marcaram de forma duradoura a vida política turca. A atitude americana é reveladora: segundo um testemunho que se tornou famoso na Turquia, o chefe da CIA em Ancara terá anunciado o sucesso do golpe em Washington com a frase «Our boys have done it» («Os nossos rapazes conseguiram»). No contexto da revolução iraniana, da intervenção soviética no Afeganistão e das tensões crescentes no Médio Oriente, a administração Carter considera a tomada do poder pelos militares como um meio de estabilizar a ala sudeste da OTAN e de preservar os interesses estratégicos ocidentais. A cooperação militar com Ancara é rapidamente reforçada, enquanto o novo regime implementa um programa económico neoliberal elaborado sob a liderança de Turgut Özal, com o apoio do FMI e do Banco Mundial7.
No final da década de 1980, a presença militar norte-americana no Golfo torna-se mais visível. Os Estados Unidos escoltam os petroleiros do Kuwait durante a «guerra dos petroleiros», enfrentam directamente as forças iranianas em vários incidentes navais e, a 3 de julho de 1988, o cruzador norte-americano USS Vincennes abate com um míssil o Airbus A300 do voo Iran Air 655, que efectuava uma ligação regular entre Bandar Abbas e o Dubai. As 290 pessoas a bordo morreram8.
A invasão do Kuwait pelo Iraque, em agosto de 1990, marca o início de uma nova fase. Sob mandato das Nações Unidas, uma coligação liderada pelos Estados Unidos lança a operação Desert Storm em janeiro de 1991. A rápida vitória militar contra o Iraque marca o início de um período em que os Estados Unidos se revelam como a potência militar dominante da região, num contexto de colapso iminente da União Soviética.
6. 1991-2011: a hegemonia norte-americana e a «guerra contra o terrorismo»
O desaparecimento da União Soviética torna os Estados Unidos a única superpotência mundial. A vitória militar contra o Iraque em 1991 marca o início de um período em que Washington procura estabelecer uma hegemonia incontestada no Próximo e no Médio Oriente. Os Estados Unidos reforçam de forma duradoura a sua presença militar nas monarquias do Golfo, impõem um regime severo de sanções contra o Iraque e consolidam a sua rede de alianças com Israel, a Turquia, o Egipto, a Jordânia e os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo.
Os atentados de 11 de setembro de 2001 marcam o início de uma nova etapa. Em nome da «guerra contra o terrorismo», os Estados Unidos invadem o Afeganistão para derrubar o regime dos talibãs e, posteriormente, o Iraque em 2003, sob o pretexto da existência de armas de destruição maciça que nunca serão encontradas. Estas duas guerras foram acompanhadas por ocupações prolongadas, pela multiplicação de bases militares norte-americanas, pelo uso sistemático da tortura em vários centros de detenção, por bombardeamentos massivos e por um custo humano considerável para as populações civis.
A intervenção no Iraque perturba de forma duradoura os equilíbrios regionais. A dissolução do exército iraquiano e de numerosas instituições do Estado favorece uma guerra civil, o surgimento de grupos jihadistas e um aumento da influência iraniana no Iraque. Longe de estabilizar a região, as intervenções americanas contribuem para dar início a um período de conflitos prolongados, cujas consequências se farão sentir durante várias décadas.
7. 2011-2023: as revoltas árabes, as guerras regionais e as reestruturações estratégicas
As revoltas populares que eclodiram em 2011 em vários países árabes deram início a um novo período de instabilidade. Os Estados Unidos adaptaram a sua política caso a caso, apoiando certos movimentos, apoiando certos governos e intervindo directa ou indirectamente em vários conflitos. A intervenção militar da OTAN na Líbia conduziu ao derrube de Muammar Kadhafi, enquanto a Síria, depois de ter vivido uma revolta popular reprimida sangrentamente pelo regime de Damasco, mergulha numa guerra civil onde se enfrentam o regime, grupos armados apoiados por várias potências regionais e internacionais, organizações jihadistas, bem como forças curdas tacticamente apoiadas por Washington para servir os seus interesses na guerra contra o chamado «Estado Islâmico».
A expansão da organização Estado Islâmico no Iraque e na Síria levou os Estados Unidos a lançar uma nova campanha militar a partir de 2014, baseada em ataques aéreos, forças especiais e apoio a aliados locais. A guerra travada a partir de 2014 pela coligação liderada pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria também provocou pesadas baixas civis. Enquanto a coligação reconhece cerca de 1500 civis mortos pelas suas próprias operações, a organização Airwars estima que o número real de civis mortos pelas acções da coligação se situe entre 8200 e 13 350, dos quais provavelmente cerca de 2400 crianças. As batalhas de Mossul e Raqqa, em 2017, foram particularmente mortíferas para a população civil.
Outro exemplo particularmente revelador da política de Washington na região é a intervenção militar levada a cabo no Iémene contra as forças hutis e os seus aliados pela Arábia Saudita a partir de 26 de março de 2015, à frente de uma coligação que inclui os Emirados Árabes Unidos, o Barein, o Kuwait, o Catar (até 2017), o Egipto, a Jordânia, Marrocos, o Sudão e o Senegal. Esta guerra contou com o apoio directo dos Estados Unidos, que forneceram à coligação armas e munições, informações de inteligência, assistência na identificação de alvos e um importante apoio logístico, que chegou ao reabastecimento em voo dos aviões sauditas. Washington contribuiu assim para as capacidades militares que permitiram à coligação conduzir, durante anos, uma campanha aérea particularmente mortífera contra o Iémene. A administração Trump pôs fim ao reabastecimento em voo em novembro de 2018, mas as vendas de armas e outras formas de apoio militar continuaram sob as administrações Trump e, posteriormente, Biden. Um cessar-fogo negociado sob a égide da ONU entrou em vigor a 2 de abril de 2022 e não foi renovado após 2 de outubro de 2022, sem, no entanto, pôr formalmente fim à guerra. Esta intervenção, que mergulhou o Iémene numa das mais graves crises humanitárias da actualidade, ilustra mais uma vez o papel de Washington no apoio às intervenções militares dos seus aliados regionais.
De acordo com um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a guerra terá causado cerca de 377 000 mortes até ao final de 2021: cerca de 154 000 directamente devido aos combates e à violência, e cerca de 223 000 devido às consequências indirectas do conflito, nomeadamente a fome, as doenças e a destruição das infraestruturas9.
Ao mesmo tempo, Washington prossegue com uma política de sanções contra o Irão, ao mesmo tempo que negocia o acordo nuclear celebrado em 2015, antes de a administração Trump se ter retirado unilateralmente do mesmo em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, e ter restabelecido uma política de «pressão máxima» contra Teerão.
Este período é também marcado por um recurso crescente a drones, operações clandestinas, assassinatos selectivos e sanções económicas. O assassínio do general iraniano Qassem Soleimani, em janeiro de 2020, ilustra esta evolução. Paralelamente, os Acordos de Abraão de 2020 favorecem uma aproximação entre Israel e várias monarquias árabes, com o apoio activo dos Estados Unidos, no âmbito de uma estratégia que visa, nomeadamente, isolar ainda mais o Irão.
O dia 30 de agosto de 2021 marca a retirada das últimas tropas norte-americanas do Afeganistão. Após 20 anos de guerra e ocupação, os talibãs saíram vitoriosos e infligiram uma humilhação aos Estados Unidos e aos seus aliados, apesar de estes últimos serem infinitamente superiores em número e em recursos materiais. Após este fracasso, Trump, então na oposição à administração Biden, prometeu que os Estados Unidos nunca mais se veriam envolvidos num tal atoleiro.
A intervenção militar conduzida pelos Estados Unidos e pelos seus aliados no Afeganistão entre 2001 e 2021 resultou num pesado balanço humano. De acordo com o projecto «Costs of War» da Universidade de Brown, mais de 46 000 civis afegãos foram mortos directamente pela guerra10. As Nações Unidas salientam que os talibãs e outros grupos insurgentes foram responsáveis pela maioria dessas vítimas, mas que as forças norte-americanas e seus aliados também causaram vários milhares de mortes de civis, nomeadamente durante bombardeamentos aéreos, incursões nocturnas e operações de contra-insurreição. No que diz respeito aos ataques aéreos norte-americanos, a Airwars estimou, em 2021, que as operações aéreas dos EUA no Afeganistão teriam provavelmente causado a morte de cerca de 6800 civis desde 2001. Ainda de acordo com o projecto Costs of War da Universidade de Brown, o total de mortes directas no Afeganistão e no Paquistão ascende a cerca de 243 000 pessoas entre 2001 e 2021; este número não inclui as mortes indirectas decorrentes, nomeadamente, da destruição de infraestruturas, da degradação do sistema de saúde, da escassez de alimentos ou de outras consequências da guerra.
8. Desde 2023: o apoio à guerra travada por Israel e a extensão do conflito regional
O ataque lançado principalmente pelo Hamas ou sob a liderança do Hamas (uma vez que, na terceira ofensiva militar, outros grupos palestinianos se juntaram ao Hamas) contra Israel, a 7 de outubro de 2023, e a guerra genocida que o governo neofascista de Netanyahu está a travar contra o povo palestiniano em Gaza constituem uma nova viragem na política norte-americana na região. Desde os primeiros dias do conflito, o presidente democrata Joe Biden, assumindo-se como sionista, prestou um apoio político, diplomático, financeiro e militar massivo ao governo israelita, apesar da amplitude da destruição infligida à Faixa de Gaza, do número muito elevado de vítimas civis e das acusações de crimes de guerra e de genocídio formuladas, nomeadamente, perante o Tribunal Internacional de Justiça.
O conflito alarga-se progressivamente a toda a região. Os confrontos opõem Israel ao Hezbollah libanês, as forças norte-americanas e britânicas intervêm contra os hutis no Iémene, enquanto as tensões aumentam com os grupos armados aliados do Irão no Iraque e na Síria. Os Estados Unidos reforçam a sua presença naval e aérea no Mediterrâneo Oriental, no mar Vermelho e no Golfo, a fim de apoiar Israel e preservar a sua capacidade de intervenção.
Durante o primeiro mandato de Trump, a sua administração reconheceu a anexação dos montes Golã, transferiu a embaixada dos Estados Unidos de Telavive para Jerusalém e encerrou o consulado dos Estados Unidos na parte árabe da cidade, confirmando assim, de facto, o reconhecimento da anexação por parte de Israel.
Posteriormente, Joe Biden apoiou incondicionalmente a política genocida antipalestiniana de Israel.
Durante o segundo mandato de Donald Trump, os Estados Unidos procuram consolidar a aliança entre Israel e vários Estados árabes, ao mesmo tempo que intensificam a pressão, as ameaças e os ataques contra governos e movimentos considerados próximos do Irão. Os confrontos directos entre Israel e o Irão em 2025, seguidos da intervenção militar norte-americana contra o Irão em junho de 2025 e, posteriormente, da guerra israelo-norte-americana contra o Irão, que teve início no final de fevereiro de 202611, confirmam que o risco de uma guerra regional aberta se tornou agora uma realidade.
Ao mesmo tempo que consideram a China o seu principal rival estratégico a nível mundial, os Estados Unidos continuam, assim, a considerar o Próximo e o Médio Oriente como uma região essencial para a defesa dos seus interesses geopolíticos, militares e energéticos.
Conclusão
Uma constante desta política é que os Estados Unidos nunca fizeram da natureza religiosa ou laica dos regimes um critério determinante para as suas alianças.
No entanto, não hesitaram em apoiar governos profundamente conservadores do ponto de vista religioso, como a monarquia saudita, ou movimentos islamistas fundamentalistas, nomeadamente entre os mujahidin afegãos na década de 1980.
Em contrapartida, Washington opôs-se a vários governos laicos, nacionalistas ou progressistas que procuravam controlar os seus recursos naturais ou conduzir uma política independente, como o de Mohammad Mossadegh no Irão, o regime de Gamal Abdel Nasser no Egipto, o Baas na Síria na década de 1960, o regime de Abdel Karim Kassem no Iraque, etc. Da mesma forma, o apoio constante prestado a Israel manteve-se, apesar de os partidos nacionalistas religiosos e as formações da extrema-direita religiosa terem vindo a ocupar um lugar cada vez mais importante nos governos israelitas. A oposição dos Estados Unidos à República Islâmica do Irão não decorre, portanto, do seu carácter teocrático e ditatorial, mas da sua recusa em integrar-se na ordem regional pretendida por Washington, da sua vontade de preservar uma autonomia estratégica e da sua influência crescente no Próximo e no Médio Oriente.
Esta política teve um custo humano imenso: golpes de Estado, guerras, intervenções militares, bombardeamentos e apoio a forças armadas aliadas contribuíram, directa ou indirectamente, para a morte de centenas de milhares de pessoas e para a deslocação de milhões de outras. Desde 1953, no Próximo e no Médio Oriente, a defesa dos interesses estratégicos de Washington tem sido assim acompanhada por uma sucessão de destruições, sociedades desestabilizadas e populações sacrificadas.
O autor agradece a Omar Aziki, Joseph Daher, Sushovan Dhar, Christian Dubucq e Said Karim pela revisão do texto
Notas
*Na moderna terminologia portuguesa, o Médio Oriente abarca o Sudoeste Asiático, entre o Mediterrâneo e regiões circundantes do Golfo Pérsico, incluindo a península Arábica. Inclui os seguintes estados actuais: Afeganistão, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Chipre, Egipto (parte asiática), Emirados Árabes Unidos, Iémene, Israel, Irão, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, Síria, Turquia (parte asiática). O Próximo Oriente engloba as mesmas regiões, mais o Egipto. «O conceito de "Oriente Próximo" difere em origem do chamado "Médio Oriente", embora seja frequentemente usado como sinônimo deste último devido à influência anglo-saxônica, já que em inglês há grande ambiguidade entre seus respectivos equivalentes, Near East e Middle East» (in Wikipedia). (N. do T.)
1 Joseph Daher, «Aliança EUA-Israel: lobby israelita ou dinâmicas imperialistas?», publicado a 11 de maio de 2026 pela revista Yaani, https://www.yaani.fr/2026/05/11/alliance-etats-unis-israel-lobby-israelien-ou-dynamiques-imperialistes/, consultado a 10 de agosto de 2026.
2 Na verdade, o primeiro golpe de Estado, com envolvimento dos Estados Unidos, ocorreu na Síria em 1949, mas nada comparável ao que aconteceu no Irão. Times, «The U.S. Intervened in Syria in 1949. Here's What Happened», publicado a 13 de abril de 2017, https://time.com/4735438/america-syria-war-coup-history/, consultado a 10 de agosto de 2026.
3 Gilbert Achcar entrevistado por Laurent Delcourt, «Trump II et les guerres au Moyen-Orient: crise de l’ordre international et fragmentation du Sud global», CETRI, 6 de julho de 2026, https://cetri.be/Trump-II-et-les-guerres-au-Moyen, consultado a 9 de agosto de 2026.
4 Zbigniew Brzezinski foi Conselheiro de Segurança Nacional (Assistant to the President for National Security Affairs) do presidente Jimmy Carter de 20 de janeiro de 1977 a 20 de janeiro de 1981. Leia a sua entrevista: https://csotan.org/textes/doc.php?art_id=1071&theme=F&type=documents e https://thenation.s3.amazonaws.com/pdf/la_nouvel_observateur_brzezinski.pdf. Tradução para inglês: https://www.marxists.org/history/afghanistan/archive/brzezinski/1998/interview.htm, consultado a 25 de julho de 2026. Zbigniew Brzezinski desempenhou um papel fundamental na elaboração da doutrina Carter (janeiro de 1980), segundo a qual qualquer tentativa de uma potência externa de assumir o controlo do Golfo Pérsico seria considerada uma ameaça vital aos interesses norte-americanos.
5 Alexander M. Haig Jr., «Talking Points for the Middle East Trip», abril de 1981, memorando desclassificado. Ver também o fac-símile reproduzido pelo National Security Archive e disponível na Wikimedia Commons. O memorando relata as informações comunicadas a Haig pelos dirigentes sauditas, constituindo, assim, um testemunho em primeira mão sobre o que estes afirmavam, sem constituir uma prova documental directa de uma decisão formal da administração Carter. Ler: https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AAlexander_Haig_1981_memo_regarding_the_Middle_east.pdf
6 David Rigoulet-Roze, «O “fantasma” do Irangate nas negociações sobre o programa nuclear iraniano», https://shs.cairn.info/revue-politique-americaine-2015-2-page-49?lang=fr&tab=texte-integral
7 Ver Éric Toussaint, «O apoio do Banco Mundial à ditadura na Turquia (1980-1983)», publicado a 21 de março de 2024, https://www.cadtm.org/Le-soutien-de-la-Banque-mondiale-a, consultado a 25 de julho de 2026.
8 Governo do Canadá, Vol. PS752: O longo caminho para a transparência, a responsabilidade e a justiça, 2022, anexo A, «Voo 655 da Iran Air». O Irão levou o caso ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). Em 1996, ou seja, mais de oito anos após o acidente, os governos dos Estados Unidos e do Irão chegaram a um acordo. Este acordo previa o pagamento de 61 milhões de dólares às famílias das vítimas iranianas, sem qualquer outro reconhecimento de responsabilidade civil ou forma oficial de pedido de desculpas dirigido ao Irão. A versão dos factos apresentada pelo Irão: https://www.icj-cij.org/node/104251. Existe um acórdão do TIJ, de 6 de novembro de 2003, relativo a outro caso conhecido como o caso das «Plataformas petrolíferas» (Irão contra Estados Unidos). Este caso diz directamente respeito aos confrontos navais entre os Estados Unidos e o Irão de 1987-1988. Nesta decisão, o TIJ considerou, por 14 votos contra 2, que os ataques norte-americanos contra as plataformas petrolíferas iranianas de 19 de outubro de 1987 e de 18 de abril de 1988 não podiam ser justificados como medidas necessárias à protecção dos interesses essenciais de segurança dos Estados Unidos, à luz do artigo XX(1)(d) do Tratado de Amizade de 1955. Ler a sentença do TIJ: https://www.icj-cij.org/node/103910.
9 PNUD, Assessing the impact of war in Yemen: Pathways for recovery, 23 de novembro de 2021, https://www.undp.org/arab-states/publications/assessing-impact-war-yemen-pathways-recovery consultado em 9 de agosto de 2026.
10 Neta C. Crawford e Stephanie Savell, Costs of War Project, Watson Institute for International and Public Affairs, Brown University, balanço humano da guerra no Afeganistão, reproduzido pela Associated Press, «Custos da guerra no Afeganistão, em vidas e dólares», 16 de agosto de 2021, https://apnews.com/article/middle-east-business-afghanistan-43d8f53b35e80ec18c130cd683e1a38f, consultado em 9 de agosto de 2026
11 Joseph Daher, «Hezbollah, quel avenir?» [Hezbollah, que futuro?], publicado pela Contretemps a 31 de março de 2026, www.contretemps.eu/hezbollah-quel-avenir/ consultado a 11 de agosto de 2026.
Fontes e referências
Fonte original: «Les États-Unis, le Proche-Orient et le Moyen-Orient : interventions, coups d’État et domination géopolitique», 2/10/2026. Tradução automática revista por Rui Viana Pereira.
