Repressão e intimidação - uma promessa de mais austeridade
Segundo declarações de um elemento da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) ao Jornal de Notícias, os trabalhadores sofreram a maior carga policial verificada no centro de Lisboa desde 1990. No momento em que escrevemos estas linhas chegam-nos notícias de crianças, idosos, pessoas em cadeiras de rodas que foram agredidas a eito. Além da carga de bastonada e dos cães, a polícia fez vários disparos de armas de fogo na Av. D. Carlos (Lisboa), para onde fugiu uma parte dos manifestantes . O local da manifestação ficou deserto em poucos segundos, à excepção dos feridos que terão ficado para trás.
As chefias da polícia tenta justificar a evacuação à bastonada e a tiro de todos os manifestantes aglomerados em S. Bento (Lisboa) com o facto de ter sido agredida à pedrada por um pequeno grupo de manifestantes. Mas esta carga policial ocorre 24 horas depois de uma outra acção policial invulgarmente violenta de agressão aos estivadores, na zona da Expo (Lisboa) – com disparos de armas de fogo da polícia, como se deduz pelos vídeos disponíveis, e grande número de feridos. [ver nota 1]
Nas manifestações anteriores, ao longo do último ano, os próprios manifestantes tomaram muitas vezes a iniciativa de conter as provocações individuais contra a polícia. Parece evidente que, perante a violência das medidas de austeridade – quer as previstas no Orçamento de Estado, quer as já postas em prática a todos os níveis da sociedade, das relações de trabalho e das funções sociais do Estado –, os trabalhadores presentes nesta manifestação desistiram de demonstram qualquer «simpatia» com as forças de repressão. Por outras palavras: terão compreendido que o Governo declarou o estado de guerra aos trabalhadores.
Está em marcha uma política deliberada de intimidação brutal dos trabalhadores.
Quer isto dizer que se avizinham novas e mais duras políticas de austeridade
Os acontecimentos de hoje em S. Bento, Lisboa, não podem ser vistos como uma simples carga policial descontrolada. Existe nesta acção um propósito deliberado por parte dos poderes públicos. A demonstração deste facto é-nos feita pelos próprios porta-vozes das forças da repressão:
Se a polícia, como afirmam os seus porta-vozes, esteve sujeita durante várias horas a provocações e agressões com pedras, antes de nos compadecermos com a sua sorte temos de fazer a pergunta lógica: porque é que as chefias ordenaram uma carga policial ao fim de várias horas? Porque não meia hora antes? Ou 5 horas antes? Porquê a violência extrema demonstrada, inclusive com disparos de armas de fogo, e não apenas a detenção de alguns manifestantes, como foi prática da polícia em ocasiões anteriores? As razões têm de ser forçosamente políticas, e não «técnicas» ou militares.
Como se tem visto nos protestos e concentrações dos estivadores de Lisboa, uma parte dos sectores do trabalho em Portugal já não consegue suportar mansamente a agressão da austeridade e desemprego, e está disposta a resistir. Daí o comportamento brutal da polícia contra os estivadores, 24 horas antes da manifestação. Existe aqui uma mensagem claramente escrita, e escrita com sangue: o Governo está disposto a chegar a extremos de violência que trazem à memória o Maio de 1886.
Hoje, após várias horas de provocações, os poderes públicos terão compreendido uma coisa: já não são só os estivadores que estão dispostos a levar ao extremo a sua luta. Normalmente, a maioria dos manifestantes teria dispersado ao mais pequeno sinal de perturbação da paz – hoje, esses mesmos manifestantes permaneceram em bloco por detrás das primeiras linhas que enfrentavam a polícia, apesar de muitos deles serem mulheres, idosos, inválidos, crianças. A súbita carga policial, ao fim de várias horas frente a frente, denuncia o momento em que os poderes públicos terão compreendido que estavam perante uma nova fase de luta. Nesse momento consideraram que tinham de entregar uma mensagem intimidatória definitiva – agora ou nunca.
O Governo prepara-se para exacerbar as medidas de austeridade a níveis nunca sonhados pela população. Esta intenção é denunciada claramente no OE (Orçamento de Estado). O mesmo OE denuncia a existência de novos e avultados «buracos negros» nas contas públicas, que só poderão ser preenchidos (na óptica dos poderes instituídos) por redobradas agressões aos interesses dos trabalhadores. É de prever que tudo isso venha a acontecer a partir de Janeiro. Nessa altura a indignação e a determinação de luta estender-se-ão a muito mais sectores da população, que já nada terão a perder em resistir.
Esta carga policial é um aviso claro do Governo. Demonstra a sua intenção de utilizar meios extremos de repressão e agressão para impedir uma resposta eficaz às medidas que prepara.
Resta saber se os trabalhadores se mobilizarão ou não para, já amanhã, responderem também eles com uma declaração de intenções clara, demonstrando que nem se deixam intimidar nem aceitam a utilização da brutalidade policial contra as suas reivindicações.
Nota 1 (acrescentada em 18/11/2012): Na primeira versão deste artigo, escrito a quente minutos depois da carga policial, afirmávamos que na antevéspera o Governo tinha concedido ao pessoal da polícia e GNR, em resposta às suas reivindicações e manifestações, um aumento salarial de cerca de 13 %. Sabemos agora que esse dado era falso. Fomos induzidos em erro por órgãos de comunicação social que (como de costume) fizeram eco dessa propaganda do ministro da Administração Interna, sem cuidarem de consultar o sindicato. Na verdade o que o ministro fez passar por aumento salarial dos polícias e gnrs é, segundo tudo indica actualmente, um aumento de verbas para o sector administrativo do ministério. Pelo lapso involuntário pedimos desculpa aos visados e aqui deixamos a reparação. Seria interessante saber, através dos próprios, se os polícias envolvidos nos acontecimentos de dia 14 também acreditaram nas palavras do ministro da Administração Interna e na contrapropaganda da comunicação social ou se estavam cientes do logro.
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